Mãe! Um filme boboca que desperta amor e ódio.

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Bom, primeiramente, deixe-me esclarecer três pontos importantes antes de dar prosseguimento ao texto: Com esse título é evidente que eu não tecerei elogio algum ao filme; O texto abaixo reflete a minha opinião particular sobre o filme, logo, se você teve outra opinião então ótimo, escreva um texto e publique-o na internet, não leve isso para o pessoal; Se você é da geração frescura, que perde o sono quando alguém te conta algum filme antes de você o ter assistido, então esse é o momento exato de você fechar essa página e navegar feliz por outros sites.

Navegando pela internet percebi que muito se tem comentado sobre o mais recente lançamento intitulado Mãe! (com exclamação mesmo). Os debates eram quase sempre acalorados e o filme parecia causar uma polarização acentuada entre os que o assistiam. Não tinha um meio termo; muitos o odiavam, muitos o amavam. Curiosamente, do ponto de vista político, os progressistas se mostravam mais receptivos e inclinados a elogiar o filme, ao passo que os conservadores expressavam comentários mais deselegantes. Algum motivo havia para isso e eu estava curioso para saber o porquê. Procurei então descobrir as razões para este fenômeno da maneira mais cuidadosa possível, afinal de contas, eu queria tirar as minhas próprias conclusões na sala do cinema. Entre uma pesquisa e outra na internet, procurei colher o maior número de informações possíveis sem estragar a magia da descoberta, mas foi inevitável não pegar a essência do filme logo nas primeiras linhas dos textos que falam sobre ele. E acreditem, isso foi ótimo!!!

Vá a um museu de arte moderna onde pessoas “cultas”, “inteligentes” e “descoladas” costumam circular. Pare em frente a um daqueles quadros rabiscados de algum artista contemporâneo desconhecido – pintados com tinta e vômito – isolados numa ampla parede branca e com luz projetada em sua direção e fique ali parado por não sei quanto tempo tentando achar algum significado nele. É assim que você vai sair do cinema após ter assistido Mãe! se não entender antes a proposta do filme.

A pretensa intenção de Darren Aronofsky em tornar a sua “obra de arte” um enigma de outro planeta – fazendo com que os mortais terrestres entrem em parafuso tentando entender a sua visão pessoal de Deus – quase atingiu o seu objetivo sublime, se não fosse por um pequeno detalhe: A história já é conhecida há mais de dois mil anos pelos mortais habitantes do planeta Terra – daí vem a grande mística do filme: Não entender a história em si, mas sim a cabeça do diretor. O filme é um enlatado que pode ser bom ou ruim, a decisão dependerá do seu paladar.

Por muito pouco Mãe! não foi um dos filmes mais confusos, cansativos e frustrantes da história do cinema, isso graças à majestosa atuação de Jennifer Lawrence e dos recursos audiovisuais empregados na película. Fora isso, o filme não merece ser assistido nem mesmo com entradas francas e pipocas grátis, pois não passa de mais uma alegoria barata e sem originalidade alguma customizada apenas para servir de quebra-cabeça e passatempo, no qual o próprio diretor parece se perder entre simbologia e realidade. Sendo mais claro: O filme não passa de uma versão pueril de O Fim dos Dias (1999) feita por um estagiário de cinema recém contratado.

Vamos ao roteiro: Do mesmo modo que um aluno preguiçoso deixa para estudar um dia antes da prova, Aronofsky demonstra ter feito um condensado bíblico apressado, confuso e negligente. Logo, o resultado não poderia ser outro, senão mais de duas horas de muitos bocejos e caras de paisagem ao final do filme [Diga-se de passagem, o roteiro foi escrito em apenas cinco dias, depois de Aronofsky – segundo ele – ter tido um “sonho fervoroso” – ou seria uma “viagem” regada a muito LSD???].

Do ponto de vista conceitual – o mais percebido entre os que “entenderam” –, o filme mostra que o homem é o grande causador da degradação do seu próprio habitat num contexto global. Ademais, as mais variadas interpretações que cada indivíduo tem do “criador” resulta numa interminável dissensão entre os povos, o que culmina em diferenças religiosas, disputas políticas e mais todo o caos mostrado no filme. Dentro da ótica analógica (marido e mulher), uma segunda interpretação ainda é válida: a de que os casamentos baseados no modelo nuclear monogâmico não foram feitos para durar – ou, na melhor das hipóteses, são um verdadeiro inferno;

Do ponto de vista bíblico, o filme é um grandioso desastre literal: Deus é interpretado por Javier Bardem, Ed Harris é Adão, Michelle Pfeiffer é Eva, Domhnall Gleeson é Caim, Brian Glesson é Abel e Jennifer Lawrence é a Mãe (Natureza). Na tentativa de apresentar uma nova perspectiva dos personagens bíblicos ao grande público – assim como fez em Noé –, Aronofsky exagera na fórmula ao humanizar Deus demasiadamente, colocando-o como um líder egocêntrico, indiferente, confuso, insensível, perturbado, obcecado, sádico, inconstante e nada, absolutamente nada onisciente – possivelmente a própria imagem de Aronofsky, creio eu. O conflito de interesses e posições entre Deus e Mãe ocorre logo após a chagada de Adão na casa (a casa representa o planeta Terra). Muitas são as nuances e referências à bíblia, mas quase todas elas apelativas, exageradas e desconexas – a Mãe (Natureza), por si só, é a maior delas (explico melhor abaixo), pois seu personagem desdobra-se convenientemente no decorrer do filme, podendo ser interpretada como Mãe Natureza, Ave Maria (Mãe de Deus) e seu Sagrado Coração. O contraste e a falta de fidelidade às escrituras acontecem a todo instante do filme, fazendo com que o espectador tenha, em muitos momentos, profunda raiva e aversão das decisões isoladas e atitudes precipitadas tomadas por Deus, o qual está permanentemente preocupado com suas próprias criações, especialmente pelo fato de ser adorado por elas. Tamanho desprezo pelos “sentimentos” da Mãe (Natureza), além de gerar permanente sensação de agonia nos espectadores durante duas horas, gera, no filme, um conflito que culmina no apocalipse – que nada tem a ver com o Apocalipse bíblico –, por conseguinte na extinção da humanidade, seguida pela extinção da natureza e, por fim, da própria Mãe, retomando assim o enredo ao ponto inicial do filme como uma espécie de ciclo interminável. Contudo, de todas as incongruências propositais apresentadas ao longo do filme – decerto ele nos dá elementos suficientes para se escrever um livro refutando-o com larga vantagem –, nenhum deles é maior do que o ato vil e covarde no qual Deus, agindo de modo astuto e oportuno, retira o menino Jesus dos braços da Mãe sem o seu consentimento, entregando-o deliberadamente aos homens para sacrifício e expiação dos pecados – friso aqui SEM O CONSENTIMENTO da Mãe, uma vez que Deus se aproveitou do sono dela para fazê-lo premeditadamente. Ora! Segundo Aronofsky, Deus amou o mundo de tal maneira que RAPTOU o seu único filho e o entregou aos homens para que todo aquele que nele… (você já conhece a história). Tudo, claro, em nome da santa vaidade e orgulho de Deus – ou seria do próprio Aronofsky? Bom… Cabe pontuar ainda a passagem extremamente grotesca e inapropriada onde a concepção de Jesus se dá pelo resultado de uma “trepada” – sim, TREPADA foi o termo usado pela esposa para afrontar o marido durante uma briga conjugal – no meio da escada após reivindicação histérica da mulher. Há também o ato perturbador onde Jesus – ainda bebê – é canibalizado pelo humanos numa cena completamente horripilante. Isso é de uma desonestidade intelectual monstruosa! Ora! Se a bíblia é um livro verdadeiro ou mentiroso isso não é um problema a ser “resolvido” por um cineasta, logo o cerne da questão não é a veracidade bíblica, haja vista, ela simplesmente existe do jeito que é e ponto final. Mas já que o filme faz inúmeras referências às escrituras, que as faça então do modo mais honesto e autêntico possível, não incrementando o roteiro com mentiras, delírios, fantasias e fábulas tendenciosas tiradas da cabeça de um lunático megalomaníaco;

Do ponto de vista filosófico, o filme abre espaço para muitas e muitas interpretações: Eu poderia sintetizar essa parte afirmando que a personalidade de Deus, segundo a visão niilista de Aronofsky, está muito mais para Friedrich Nietzsche do que para Thomaz de Aquino. Mas o filme se chama Mãe! e não Pai! Sendo assim, o conceito da Mãe (Natureza) trazido por Aronofsky está intimamente vinculado ao seu ativismo ambiental (mas isso eu comento mais abaixo). Ademais, tal simbologia – em dissonância com a filosofia judaico-cristã (que é a base central do filme, cabe ressaltar) –, não encontra respaldo algum na religião monoteísta supracitada, a não ser nas mitologias gregas, egípcias, romanas, babilônicas e indianas. Daí, além de percebermos a salada feita pelo diretor, entendemos a verdadeira origem do conflito permanente entre marido e mulher – ou Deus e Mãe –, pois são dois personagens com vertentes totalmente distintas. Noutro exemplo, se pegarmos o pensamento de Baruch Spinoza, inferimos que a Mãe (Natureza), tem prioridades absolutamente antagônicas às de Deus (Judaico) e que o final da história não poderia ser outro, senão um casamento arruinado [no sentido literal] e / ou a extinção da humanidade [no sentido alegórico]. É oportuno comentar também que a aceitação pública conquistada pela Mãe (Natureza), em contraste com o personagem Deus, é espantosamente maior, pois a Mãe se identifica emocionalmente com o espectador, uma vez que se conecta intensamente com o público pelo aspecto racional da trama – isso é absolutamente intencional e fará total sentido no tópico abaixo;

Do ponto de vista ideológico, o filme pode ser encarado como um elaboradíssimo panfleto que colocaria Goebbels no patamar de aprendiz de marketing. Nesse quesito dois elementos são bastante notáveis: O primeiro deles é a causa feminista. Mãe é a vítima de um sistema opressor e injusto. Na sua desvantajosa e frágil posição como mulher – e criatura –, dedica-se inteiramente à casa, aos caprichos do marido e, posteriormente, ao filho. Todavia, dada à sua falta de opção, é permanentemente subjugada por um sistema fálico patriarcal, no qual o marido – evidentemente machista, diga-se de passagem – a trata como um objeto sem importância a ser substituído e reposto por outro ao bel-prazer do seu criador e isso fica mais do que evidente quando ela diz no final do filme: “Você nunca me amou. Você amou o meu amor por você.” O segundo elemento, ainda mais evidente, fica por conta do apelo ecológico feito pelo filme, pois, como já dito acima, Aronofsky não é exclusivamente um cineasta, mas um “cineasta-ativista-ambientalista” engajado na causa – daí o traço maior da sua complexidade – pra não dizer desonestidade intelectual. Logo, o filme, nesse aspecto, não passa de um escrachado proselitismo politicamente correto que tenta, da forma mais sorrateira e barata possível, passar a visão ambientalista / ideológica do diretor para o grande público – e o pior é que funciona! Pessoalmente, apesar de acreditar piamente que a causa ecológica esteja dentro do mesmo arcabouço da causa feminista – pois não passam de meros tentáculos do mesmo monstro –, eu não entrarei aqui na questão técnica [explico melhor aqui], pois isso renderia ao texto exaustivas linhas e eu acho que já expus o suficiente. Sendo assim, termino-o apenas apontando que esses dois últimos elementos representam a essência maior – e deprimente – de Mãe! Talvez você tenha amado esse filme pelas mesmas razões que eu detestei.

Não vale a pena!

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Um comentário sobre “Mãe! Um filme boboca que desperta amor e ódio.

  1. “Vá a um museu de arte moderna onde pessoas “cultas”, “inteligentes” e “descoladas” costumam circular” e verá homens nus com falo a mostra… e polêmicas do bolsominions. o filme é bom, mas eu prefiro a complexidade estética do filme As Panteras.

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